Você não vai querer ouvir isso |
A poesia vogon é, como todos sabem, a terceira pior do Universo. Em segundo lugar vem a dos Azgodos de Kria. Durante um recital em que seu Mestre Poeta, Gruntus – o Flatulento, leu sua ‘Ode ao pedacinho de massa de vidraceiro verde que encontrei no meu Sovaco numa manhã de verão’, quatro pessoas na plateia morreram de hemorragia interna e o Presidente do Conselho Centro-Galático de Marmelada Artística só conseguiu sobreviver roendo uma das suas próprias pernas completamente. Consta que Gruntus ficou decepcionado com a reação da plateia e já ia começar a ler sua epopeia em 12 tomos intitulada ‘Meus Gargarejos de Banheira Favoritos’ quando seu próprio intestino grosso, numa tentativa desesperada de salvar a vida e a civilização, pulou para cima, passando pelo pescoço de Gruntus, e estrangulou-lhe o cérebro. A pior poesia de todas desapareceu com sua criadora, Paula Nancy Millstone Jennings, de Cambridge, Essex, Inglaterra, com a destruição da Terra. |
Richie
Por Crowley
Não existe nada mais desconfortável do que acordar no dia em que você vai morrer. Todas aquelas pequenas coisas conspirando contra você, todos os pequenos detalhes nas pequenas escolhas pra te levar a algum ponto de colisão e arrancar sua vida com uma espinha de peixe cravado na sua traquéia. Bem, não que todas as vidas sejam arrancadas com espinhas de peixe cravadas em traquéias, mas essa em particular. A questão é que um professor de inglês chamado Richie, com longos quarenta e três anos de vida havia acabado de acordar no dia de sua morte. Ele, é claro, não sabia disso. Dos quarenta e três longos anos de sua existência, os mais longos haviam sido os treze de casamento, que acabaram duas semanas atrás, o lado bom disso é que ele pôde tirar alguns dias de folga para superar o fato de sua esposa ter ido embora com sua filha. O lado negativo disso tudo, além de ter perdido a mulher e a filha, foi ele ter acordado dez minutos depois do meio dia e decidido comer o que tinha sobrado de peixe da noite anterior – e esse foi o primeiro erro, gostar de peixe. Não estou reclamando disso porque o peixe foi o que matou ele, mas porque ele gosta de peixe quando existem tantas outras carnes por aí –.
Enquanto Richie dava um soco no colchão por ter que levantar da cama, sua colega de trabalho, Medony, que era perdidamente apaixonada por ele, decidiu surpreendê-lo e levar almoço pra ele em casa e ajudá-lo com todo esse problema de mulheres e filhas indo embora. Pegou qualquer porcaria em um café perto da casa de Richie e correu até lá, com o maior sorriso no rosto. Ela tocou a companhia.
Alguns minutos antes de Medony tocar a companhia; contudo, Richie desejou não ver ninguém pelo resto do dia – mal sabia ele que iria conseguir isso com muito êxito – enquanto esquentava o peixe para almoçar. Achou que não faria muito sentido colocar alguma roupa, já que não queria nem abrir a janela de casa, achou também que não precisava tirar a espinha do peixe antes de comê-lo, pois era um homem inteligente e fazia isso enquanto mastigava mesmo desde criança, o que, ironicamente, resultou em Medony tocando a companhia e dando um susto terrível em Richie, que engoliu involuntariamente sem mastigar o pedaço de peixe que estava na sua boca, e o resto você já sabe.
“Está tudo bem agora”, disse um homem sentado ao lado de Richie, “você pode respirar já, bem, na verdade não, mas não tem mais nada fincado na sua garganta pelo menos.”.
“Há quanto tempo você está sentado aí? Quem é você?”, perguntou o professor, assustado.
“Eu vim… Meio que, eu meio que vim pra meio que te levar pra um lugar meio que melhor.”, disse o homem enquanto pensava porque ninguém nunca tinha perguntado aquilo para ele antes.
“Saia agora ou eu chamo a polícia!”, disse Richie, levantando-se.
“Richie, ah, pelo amor de Deus.”, o estranho suspirou, “Você está morto, olhe para a direita.”
Richie se virou.
“Não, a sua direita. Minha esquerda.”
Se existe algo mais desconfortável do que acordar no dia em que você vai morrer, certamente é olhar para o seu próprio cadáver, um pouco porque você percebe que não se tornou nada do que queria ter se tornado, e um pouco também porque você está morto, mas, principalmente, porque você nunca está com uma cara muito boa e imagina a reação de quem te encontrar ali com aquela cara horrível que você está fazendo. Algumas pessoas gritam, outras vomitam – bem, vomitariam se não estivessem mortas – e outras saem correndo e não aceitam. Richie, por outro lado, suspirou e disse, “Isso facilita bastante as coisas.”
O estranho sorriu. Estava confuso por ter visto a primeira pessoa do mundo a não se importar em ter morrido, mas estava feliz por não ter que fazer todo um discurso dizendo que não era tão ruim quanto parece, o que, convenhamos, é bem pior do que parece, afinal, você está morto.
“Não quero exigir muita coisa”, Richie começou, “mas acho que, depois de tudo que eu passei aqui, me mandar para o inferno ia ser uma sacanagem.”
“Felizmente eu não faço ideia de como sua vida foi por aqui, e também, não cabe a mim decidir pra onde você vai, isso é o trabalho do elevador.”
“Elevador?”, perguntou Richie.
“É, aquele ali.”, disse o estranho apontando pra um elevador que Richie nunca tinha visto na vida e que, curiosamente, estava parado no meio da cozinha.
“Como…?”
“Ah, eu não faço ideia.”, disse o homem, “Ele só aparece, você entra e ele decide se você sobe ou desce. É tudo que eu sei. Tudo o que me contaram.”
“É assim que funciona então?”
“É, apenas certifique-se, antes de entrar no elevador, de que o mesmo encontra-se neste andar.”
“O.K.”, disse Richie, entrando no elevador.
“Essa foi fácil”, disse a si mesmo o homem satisfeito, enquanto o elevador subia.
¤
Algum dia, de alguma forma, no horário que seja mais – ou em alguns casos menos – conveniente, todo mundo morre. É. Eu sei, parece injusto. Mas não tem porque surtar com isso, afinal, não é tão ruim assim – é claro que eu nunca morri pra saber isso, mas pelo menos não tem ninguém para provar o contrário, eu espero –. A morte é uma das coisas mais engraçadas sobre os seres humanos, quer dizer, não a morte, mas o que os seres humanos vivos pensam sobre ela. Vamos tentar esclarecer. Uma das coisas mais engraçada sobre os seres humanos é o fato de grande parte deles passar grande parte de suas vidas pensando sobre coisas para as quais nunca terão uma resposta definitiva. O que acontece e para onde vamos depois que morremos, por exemplo. “Vamos para o paraíso? Para o inferno? Ou não há nada, apenas escuridão? Ficamos aqui na Terra, vagando e movendo copos de crianças de dez anos tentando assustá-las para nos divertirmos um pouco?”. Não há como ir muito além disso, a não ser, obviamente, criar novas perguntas sem respostas, mas para isso temos a filosofia, e não a literatura.
Essa é uma história sobre despedidas, e, como todas as histórias sobre despedidas, ela começa com um encontro.